O Departamento de Estado dos Estados Unidos cortou as verbas para o rastreamento de milhares de crianças ucranianas sequestradas pela Rússia. Além disso, autoridades americanas ou contratadas podem ter deletado um banco de dados com informações sobre as vítimas, de acordo com carta que os legisladores do país planejavam enviar ao secretário de Estado, Marco Rubio, nesta quarta-feira (19).
Pesquisas sobre as crianças sequestradas, como a da Universidade Yale, foram congeladas quando o presidente americano, Donald Trump, assinou um decreto no final de janeiro interrompendo quase todos os gastos com ajuda externa. Desde então, Rubio e uma autoridade sob sua supervisão, Pete Marocco, encerraram a grande maioria dos contratos, incluindo o do laboratório de Yale.
A carta do Congresso, organizada pelo deputado Greg Landsman, disse que “a suspensão da ajuda externa colocou em risco, e pode eventualmente eliminar, nosso apoio informativo à Ucrânia nesse aspecto”.
O Departamento de Estado e a Universidade Yale “vinham preservando evidências de crianças sequestradas da Ucrânia que haviam identificado, para serem compartilhadas com a Europol e o governo da Ucrânia para garantir seu retorno”, dizia a carta, de acordo com cópia obtida pelo The New York Times. A Europol é a principal agência de aplicação da lei da União Europeia.
O documento afirmava que havia motivos para acreditar que os dados do repositório haviam sido permanentemente deletados. “Se for verdade, isso teria consequências devastadoras. Você poderia nos atualizar sobre o status dos dados do repositório de evidências?”, questiona o texto.
O laboratório de Yale foi um dos vários beneficiários dos US$ 26 milhões (cerca de R$ 145 milhões) em financiamento do Congresso ao longo de três anos por meio do Departamento de Estado para rastrear crimes de guerra cometidos por forças russas na Ucrânia. Esse trabalho começou em 2022 sob um programa chamado Observatório de Conflitos.
Yale analisou o sequestro de crianças e os “locais de filtragem” na Ucrânia ocupada pela Rússia, onde ucranianos eram interrogados e preparados para deportação para território russo. Os pesquisadores utilizaram dados de fontes abertas e imagens de satélites comerciais.
Dentre o resultado dessas pesquisas, Yale divulgou que o presidente russo, Vladimir Putin, e funcionários do alto escalão do Kremlin não só sabiam como autorizaram sistematicamente a adoção forçada de crianças ucranianas, sequestradas das regiões ocupadas de Donetsk e Lugansk. Elas eram levadas para 21 áreas na Rússia e passavam por processo de apagamento de suas identidades e origens ucranianas.
Pesquisadores de Yale criaram o banco de dados Caesar para o Departamento de Estado compartilhar informações sobre crianças sequestradas com a Europol e o Tribunal Penal Internacional, visando possíveis acusações contra autoridades russas. Em 2022, após a invasão russa na Ucrânia, o presidente Joe Biden acusou a Rússia de genocídio.
Autoridades ucranianas afirmam que a Rússia sequestrou 20 mil crianças da Ucrânia. Pesquisadores de Yale rastrearam 30 mil fora da Ucrânia, incluindo dados sobre 6.000 crianças levadas para a Rússia e mais de 2.400 para a Belarus. O banco de dados contém informações detalhadas sobre 314 crianças sequestradas na Rússia, incluindo nomes, fotografias e dossiês de 20 a 30 páginas.
Em julho de 2023, uma autoridade russa disse que a Rússia levou 700 mil crianças de zonas de conflito na Ucrânia para a Rússia.
Algumas das descobertas foram divulgadas anteriormente em relatórios públicos de Yale. O centro também forneceu informações sobre as crianças ao governo ucraniano.
O principal contratante do projeto do Departamento de Estado é a Mitre, organização sem fins lucrativos que presta serviços ao governo dos EUA, incluindo agências de inteligência. O laboratório de Yale tinha um contrato com a Mitre. O Departamento de Estado não respondeu a um pedido de comentário sobre o projeto e o status do banco de dados. A Mitre também não respondeu.
Os pesquisadores de Yale não conseguiram trabalhar no projeto desde que a suspensão de financiamento começou no final de janeiro.
Quando o governo dos EUA interrompeu a ajuda de armas e o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia depois que Trump repreendeu o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, na Casa Branca em fevereiro, os pesquisadores de Yale perderam o acesso a imagens de satélite.
O governo Trump reiniciou o compartilhamento de inteligência e a ajuda de armas após uma reunião na Arábia Saudita, neste mês, entre autoridades dos EUA e da Ucrânia. No entanto, os pesquisadores de Yale ainda não têm acesso às imagens de satélite.
Trump está tentando se alinhar com o presidente russo, e os dois conversaram por telefone na terça-feira (18). O presidente americano disse que queria organizar um cessar-fogo de 30 dias na Ucrânia, com o qual os ucranianos concordaram, mas Putin concordou em interromper temporariamente os ataques à infraestrutura energética.








