Na tela preta uma citação de Aristóteles. Corta para um “e aê, vâmo? Bora.” Essa justaposição, logo na sequência de abertura, do pensador grego com a filosofia mineira de buteco —no mineirês é com “u” mesmo— sintetiza o novo filme de Cao Guimarães. “Amizade” é um documentário que nasce com a pandemia e chega nos cinemas depois da sobrevivência à Covid-19 e à longa espera pelo Oscar de melhor filme internacional.
Feito durante 30 anos, “Amizade” parte de três matérias-primas cada vez mais raras no mundo contemporâneo: momentos reais, registros espontâneos e memórias acumuladas. Cao Guimarães tem a sensibilidade peculiar de um artista conectado aos nossos anseios. Ele sabe sobre pós-verdade, sobre registros cada vez mais ficcionais nas redes sociais e sobre nosso problema crônico, a falta de memória.
Aquilo que os teóricos chamam de filme processo, para o diretor é uma oportunidade para promover reencontros. Seja nos filmes Super8 e 16mm ou nas telas de computador. Seja nas fitas cassete ou nas gravações de secretária eletrônica. Seja pelo olho virtual ou pelo real.
Os amigos de Cao Guimarães o acompanham durante o distanciamento social no Uruguai. Já que eles não puderam ir pessoalmente, vão por meio de imagens e sons. Sons, inclusive, sempre construídos de maneira inventiva pela dupla d’O Grivo. Mineiros, assim como Cao, responsáveis pela trilha sonora, musical ou não, de praticamente todos os filmes dele.
Para além de apenas mais um filme pandêmico feito a partir de material de acervo, “Amizade” é também uma grande homenagem ao cinema, como reflete o diretor. “A amizade sempre foi o exercício por excelência da alteridade e, além disso, também é, como o cinema, uma escultura no tempo”, diz ele, em determinado momento do longa.
Alteridade, natureza ou condição do que é outro, do que é distinto, é o que nos falta hoje em dia. Em especial no cinema documentário refutado por Cao, viciado na primeira pessoa, na voz de um narrador como muleta, no entendimento do ser humano como alguém binário, entre o bem e o mal.
A amizade, pela ótica de Cao Guimarães, é recheada de complexidade. Feita de encontros, claro, mas também de desencontros, de distância, de silêncios. E como construir um filme sem estar preso eternamente nele?
Ao revisitar as próprias memórias, o cineasta tenta olhar para frente. Entender o presente a partir daquilo que conecta as pessoas e a partir das próprias sobras de filmes e rastros do processo criativo. São restos de matéria-prima, costurados numa colcha de retalhos, para construir uma nova obra de arte. Uma obra que dialoga com a própria vida do artista.
Lá pelas tantas, o diretor recorre a outro filósofo grego, Epicuro, para dizer que a verdadeira amizade apenas compartilha um trajeto, sem gerar dependência e cobrança. É o paradoxo da obra de Cao Guimarães! Pois a cada novo filme dele nos tornamos mais dependentes desse tipo de cinema, preocupado em ser generoso com o outro. Aquele defronte à câmera! Vamos aproveitar então, e ver “Amizade” na tela grande do cinema, com gente desconhecida ao lado. Afinal, como nos alerta o filme, a realidade lá fora começa a ficar desfocada.








